pollemika #2: Thomas Hobbes, o medo do abismo e o colapso do espaço político

Continuamos a nossa aventura em torno da moderna filosofia política. No texto passado, falamos sobre as noções de consentimento e revolução em John Locke e como elas estão relacionadas com a crise de legitimidade que se experimenta mundo afora. Neste texto, conversaremos sobre Thomas Hobbes e o medo do abismo.

Antes, um breve alerta: os textos deste blog sempre começarão com citações ou referências a eventos recentes. A presença de citações não quer dizer que o texto estará defendendo as citações ou os eventos mencionados, pois, como dito na introdução, o blog não está muito interessado na conversa ideológica ou partidária. As citações e referências servirão o propósito de situar o assunto que será discutido.

Em uma entrevista recente, quando perguntado sobre as razões que explicam a ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos, Noam Chomsky deu uma resposta que me remeteu diretamente a Thomas Hobbes, um dos fundadores da filosofia política moderna ao lado de John Locke. Esta questão é importante para nós, pois, não apenas no Brasil e nos Estados Unidos, testemunhamos a possibilidade de crescimento de políticos oportunistas no vácuo político que se apresenta. Eis a resposta de Chomsky. O que explica a ascenção de Trump é: “Fear, along with the breakdown of society during the neoliberal period. People feel isolated, helpless, victim of powerful forces that they do not understand and cannot influence”.

Segundo Chomsky, a ascensão de Trump se deve ao medo e ao colapso da sociedade no período neoliberal. Ainda segundo ele, as pessoas se sentem isoladas, sem esperança e vítimas de forças gigantescas que elas não conhecem e que não podem influenciar. Esta é uma sentença extraordinária e vamos partir dela para pensar acerca do lugar e da centralidade do medo na filosofia política moderna e como esta idéia ainda opera em pleno vigor no atual espaço político. Esta é uma oportunidade para conversarmos sobre uma idéia bastante básica, mas poderosíssima e constitutiva da experiência da filosofia política liberal.

Para compreendermos a centralidade do medo na obra de Hobbes, precisamos compreender certos aspectos de sua concepção da natureza humana. De acordo com ele, 1) os humanos são movidos pelo medo, mais especificamente, pelo medo da morte violenta pela mão do vizinho. Além disso, 2) os humanos são movidos pelo desejo de adquirir e consumir coisas, tipicamente aquelas que são prazerosas, uma após a outra. Finalmente, 3) humanos possuem interpretações profundamente diferentes acerca do que significa viver. O que significa conforto? O que significa viver bem? O que é ético e moral? Qual é a melhor forma de organização política? Para Hobbes, os humanos possuem visões completamente diferentes – até mesmo incompatíveis – acerca dessas coisas porque elas, a priori, não existem naturalmente. Mesmo se essas coisas existissem de fato, os humanos teriam interpretações radicalmente diferentes acerca delas.

Assim, nós somos criaturas que fatalmente competirão – muitas vezes chegando às vias de fato – por causa do medo, do desejo de adquirir e consumir e da fundamental discordância acerca dos assuntos importantes. Desta forma, o ódio é difundido entre os humanos. Neste sentido, a experiência moderna de criação de um contrato social serve o propósito de administrar, controlar e gerir o ódio. O liberalismo político é uma estratégia (e não uma solução) para manejar o ódio.

O medo é uma das potências por trás da razão da criação e do estabelecimento do contrato social. É o medo da morte que está por trás da criação deste lugar que nos permite escapar do estado de natureza, diminuir a violência, domar o ódio e permitir que cada um persiga seus interesses particulares. “As paixões que inclinam os homens à paz são o Medo da Morte, o Desejo de coisas necessárias para se levar uma vida adequada e a Esperança de obtê-las com seu próprio trabalho”, diz Hobbes no capítulo XIII do Leviatã após descrever o estado de natureza. Pode causar estranhamento a ideia de que o medo é central na construção e manutenção de um espaço político onde vigore a paz e onde o indivíduo possa perseguir seus interesses particulares, ou mesmo nos lembrar alguma narrativa distópica, como “1984”, de Orwell. No entanto, é exatamente isto que Hobbes está dizendo em sua obra. O medo do abismo tem uma função central na obra de Hobbes e no projeto da moderna filosofia política liberal.

Se nos espantarmos com essa ideia, podemos perceber várias coisas.

Uma destas é a de que políticos como Trump e Bolsonaro não representam nenhuma novidade. Os dois não representam nenhuma novidade para o pensamento político porque o experimento político da moderna filosofia política liberal pressupõe, desde o início, a existência do medo e do ódio. O contrato social existe justamente porque o medo e ódio existentes entre os diversos grupos que constituem a sociedade são enormes e profundos. Neste sentido, a existência de um espaço político que assegure minimamente um espaço de relativa paz é em si mesmo um milagre.

Uma vez que não se trata de investigar se estes políticos oportunistas representam alguma novidade para o pensamento político, pois eles não são nenhum fenômeno novo, devemos nos perguntar como opera o medo hoje e ver o que podemos aprender com Hobbes e a filosofia política moderna. Vale insistir, não se trata de fazer um elogio ou defesa da moderna filosofia política liberal, mas de compreendê-la e entender quais são os seus limites.

O medo é real. Estes políticos oportunistas apenas podem se aproveitar do medo porque ele existe de fato. O colapso da classe média, a quase completa integração do mundo que evapora a noção de fronteiras, o aparecimento de compreensões transnacionais da noção de cidadania e, a reboque, as consequentes crises de identidade são reais e constatáveis empiricamente. O mundo em que vivemos hoje é completamente diferente daquele mundo onde foram criadas as noções mais básicas de política que utilizamos hoje. Existe um abismo entre as noções e compreensões que utilizamos para descrever o nosso mundo e o que está acontecendo de fato e isso também ajuda a produzir o medo e a ansiedade da qual estamos tentando falar. E diante deste abismo, sentimos medo e somos movidos à ação.

Exemplos são sempre interessantes para compreender melhor o que estamos falando. Para entender como o medo é real, vale a pena olhar para a Grécia. Este olhar pode nos fazer lembrar um período peculiar de nossa própria história. A Grécia não é mais um estado tal qual normalmente concebemos um estado. Hoje, a Grécia é um protetorado do Fundo Monetário Internacional e do sistema bancário europeu. Temos lá uma atual geração de jovens com educação superior que permanece desempregada, independente de suas ambições, desejos, sinceridade e genialidades, e vivendo com os parentes, cujas pensões e direitos são sistematicamente cortados. Na Grécia e em países que experimentam uma condição similar (e aqui podemos nos lembrar do Brasil em 1998), governar não significa mais o que normalmente entendemos por governo, mas significa administrar o declínio aparentemente inevitável das instituições econômicas, políticas e sociais. A possibilidade de que outros países experimentem o mesmo é real e, diante dela, naturalmente as pessoas estão expostas ao medo.

Ainda sobre o medo do abismo, podemos nos valer de um segundo exemplo. Um estudo recente nos Estados Unidos demonstra um crescimento espantoso nas taxas de mortalidade entre brancos não-hispânicos do sexo masculino entre 45 e 54 anos, trabalhadores e com baixa escolaridade (por sinal, o perfil do eleitorado explorado por políticos oportunistas). Normalmente, estes picos de mortalidade se devem a tradicionais suspeitos: guerras, epidemias ou mesmo diabetes. No entanto, os responsáveis por este aumento são suicídios, overdoses, doenças crônicas ligadas ao fígado e cirroses, atribuídas, segundo o artigo, a estilos de vida pouco saudáveis adotados diante do desespero, da dor e do stress. A pesquisa fala em uma epidemia de dor. E nós ainda estamos longe de entender a enormidade desta crise.

Ao entendermos o que há de amedrontador no atual espaço político, torna-se evidente qual é o perigo do oportunismo político. Nestes tempos de medo e cólera, o perigo do oportunismo político consiste em conferir ao medo um rosto, raça, cor da pele, gênero, condição econômica. No entanto, isto só é possível porque, desde o princípio, vigora uma compreensão acerca da própria humanidade onde o medo e o ódio são centrais.

Podemos conectar este fato empiricamente constatável com o medo do qual Hobbes fala. Para ele, o mais intenso dos medos no estado de natureza é o medo de uma morte brutal e dolorosa. Vamos voltar à citação de Chomsky. Segundo ele, as pessoas se sentem isoladas, sem esperança e vítimas de forças gigantescas que elas não conhecem e que não podem influenciar. Esta é uma descrição não apenas da situação que a Grécia e outros países enfrentam, mas uma descrição da situação global. Se, segundo Hobbes, o medo é uma paixão que faz o humano se inclinar para a paz e construir um espaço político seguro, de outro lado, o medo também é uma potência destrutiva, com o potencial de arrasar o espaço político. As conseqüências desta situação serão transformadoras. Será que as atuais instituições políticas sobreviverão?

É muito difícil prever o futuro das atuais instituições políticas, uma vez que, para o bem ou para o mal, este espaço político não é tão sólido e resistente quanto achamos. No entanto, parece que o experimento da moderna filosofia política liberal alcançou o limite de suas possibilidades. No próximo texto, conversaremos mais sobre uma terceira concepção importantíssima para a moderna filosofia política liberal: a relação entre dinheiro e política.

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