Dinheiro e Política

A publicação das reportagens do #PanamaLeaks pela ICIJ me fizeram antecipar o lançamento deste texto. Trata-se de um esforço monumental para buscar fatos jornalísticos de grandíssima relevância em uma quantidade colossal de documentos, que eclipsa qualquer outro caso de corrupção. Em torno desses eventos, há algo muito importante a ser pensado: a relação entre dinheiro e política.

A noção de que o dinheiro contaminou e corrompeu as esferas econômicas, políticas e sociais é uma daquelas que nós normalmente não desafiamos. Afinal, parece muito óbvio, diante das listas a detalhar propinas e de casos monstruosos de corrupção ao redor do mundo, que o dinheiro contaminou e alterou o funcionamento da política. Assim, responsabilizamos a corrupção pelas mazelas de nosso povo e sonhamos com uma política na qual a influência do dinheiro não existiria. Sonhamos com uma política mais justa. Sonhamos com justiça econômica.

Em nome do exercício proposto por esse blog — analisar a relação entre os eventos políticos e as ideias filosóficas que deram origem a eles — iremos desafiar esta noção de que o dinheiro corrompeu a política. Fazendo isso, estamos nos abrindo à possibilidade de investigar mais uma noção fundamental da moderna filosofia política liberal. A saber: não existe diferença ou separação entre os domínios da economia e da política. Economia e política são dimensões simultâneas. Elas são co-extensivas. Entendendo melhor o significado disso, teremos uma visão mais sóbria a respeito da política, do dinheiro e da corrupção.

Um dos fundamentos da moderna filosofia política já em Maquiavel — e também em Hobbes e Locke — é a transformação da interpretação acerca da natureza humana em relação ao mundo clássico e ao mundo medieval. Segundo a interpretação da moderna filosofia política, todos os humanos são econômicos por natureza: todos os humanos são movidos pelo desejo insaciável e interminável de adquirir. Bem cedo n’O Príncipe, no terceiro capítulo, pode-se ler a seguinte observação de Maquiavel: “É coisa muito natural e comum o desejo de adquirir e, sempre, quando os homens podem fazê-lo, serão louvados ou, pelo menos, não serão censurados; mas quando não tem possibilidade e querem fazê-lo de qualquer maneira, aqui está o erro e, consequentemente, a censura.”

Esta passagem é impressionante, pois marca uma transformação da interpretação da natureza humana na modernidade em relação ao mundo antigo e o medieval (não exploraremos estas agora por falta de tempo e ocasião propícia). O mundo clássico tinha uma interpretação fundamentalmente diferente acerca da natureza do humano e do propósito da vida em relação ao mundo moderno. Neste sentido, esta transformação é importantíssima para pensar a modernidade: é ela que abre a possibilidade de gestação do capitalismo e do mundo tal qual conhecemos hoje.

Pouco mais de cem anos após Maquiavel, Thomas Hobbes vai além dele e afirma, no Leviatã, que a felicidade não consiste na contemplação, na virtude moral, no conhecimento de deus ou da vida boa. A felicidade da vida consiste na busca constante de um prazer após o outro. A felicidade é um contínuo desenvolvimento do desejo de adquirir, um prazer após o outro. Para Hobbes, a felicidade humana consiste em adquirir. Humanos são criaturas econômicas, que buscam de forma agressiva e individualista a felicidade, que consiste no desenvolvimento constante do desejo de adquirir, um prazer após o outro.

Finalmente, no Segundo Tratado Sobre o Governo Civil, Locke radicaliza as idéias de Maquiavel e Locke ao criar, pela primeira vez na história do ocidente, uma justificação filosófica para a criação das noções de propriedade e propriedade privada, afirmando que o homem possui a propriedade das coisas derivadas de seu corpo e mente: ele é dono do próprio trabalho e dono da própria genialidade. Segundo Locke, deus teria entregado a terra aos industriosos e racionais. Assim, os homens estão autorizados a criar valor.

De acordo com a filosofia política moderna, nós somos criaturas econômicas, famintas por adquirir coisas que nos causem prazer e que aumentem nossas riquezas. Agora, temos que nos lembrar de outra característica fundamental da moderna filosofia política, que mencionamos nos textos anteriores: segundo esta corrente, as instituições políticas não existem por natureza. A política não é natural. Não existem instituições políticas ou legais que existem por natureza. Quer dizer: o espaço político e social onde os humanos — que são criaturas econômicas — podem buscar adquirir bens não existe naturalmente. Neste sentido, um contrato social é criado para permitir que os humanos — criaturas econômicas — possam exercitar e satisfazer o seu desejo de adquirir e consumir com segurança. Hobbes é brutalmente claro a esse respeito no capítulo XIII do Leviatã, ao descrever como o estado de natureza é uma situação difícil para estes humanos movidos pela sede de adquirir e consumir: “Em tal circunstância, não há espaço para o Trabalho Duro, porque os frutos dele são incertos; e, consequentemente, nenhum Cultivo de terra, nenhuma Navegação, nem o uso dos Produtos que podem ser importados por Mar, nenhuma construção de Prédios úteis, nenhum Instrumento para Mover ou Remover as coisas que precisam de mais força, nenhum conhecimento da face da Terra, nenhuma contagem de Tempo, nenhuma Arte, nenhuma Literatura, nenhuma Sociedade e, pior ainda, vive-se com medo e o perigo contínuo da morte violenta; E ao homem, uma vida solitária, pobre, suja, bruta e curta.”

O que Hobbes está dizendo é que estes humanos — que, por natureza, desejam adquirir e consumir, criar impérios e acumular riquezas — não conseguem consumar as suas naturezas humanas porque a vida no estado de natureza é muito difícil. Para que isto possa acontecer, o mundo político é literalmente criado, inventado, em todas as suas instituições e processos, de forma que as criaturas econômicas possam ser criaturas econômicas. O desejo de adquirir e consumir (junto com o medo) está também por trás da criação do contrato social: “As paixões que inclinam os homens à paz são o Medo da Morte, o Desejo de coisas necessárias para se levar uma vida adequada e a Esperança de obtê-las com seu próprio trabalho.”

Neste sentido, o mundo econômico e o mundo político são simultâneos, co-extensivos. São o mesmo. Quando constatamos isso, podemos perceber como é inocente a noção de que o dinheiro corrompeu a política. Não é que o dinheiro corrompeu e desviou a política: desde o começo do mundo moderno, a política foi criada para facilitar as dinâmicas em torno da aquisição e do consumo. Quando nós reclamamos da ausência de justiça econômica, movidos pela impressão de que estão roubando de nós uma fatia de riqueza, estamos reafirmando a tese acerca da natureza econômica do homem, afinal, estamos furiosos porque estão nos roubando riquezas. Mesmo Marx e sua imperdível e imprescindível análise do capitalismo se movimentam dentro desta noção e não alteram a interpretação da natureza humana. As reclamações por menos ou mais intervenção do estado em prol da “justiça econômica”, seja lá o que isto significa, apenas confirmam e reforçam a tese de que os seres humanos são animais econômicos por natureza.

As pessoas estão furiosas com o que elas pensam ser o efeito corruptor do dinheiro na política, mas, na verdade, esta fúria emana do profundo medo e do desejo de auto-preservação que vimos no segundo texto deste blog. Este medo é especialmente mais intenso hoje por causa do nosso atual contexto de dissolução da classe média, da substituição da mão de obra por máquinas e da estagnação de salários. Em certo sentido, esta fúria e medo expressos nos protestos contra corrupção mundo afora não chegam perto das ideias que originam os eventos políticos que experimentamos.

É muito importante compreender que os espaços econômicos e políticos são co-extensivos. Neste sentido, estamos enganados quando pensamos que o dinheiro corrompeu a política. O que estamos testemunhando não é a corrupção do sistema político, mas a radicalização da lógica em torno da qual nosso sistema político foi criado. O sistema político e as instituições são como são porque foram criados em torno da noção de que os humanos são animais econômicos por natureza. Uma verdadeira crítica e transformação de nosso espaço político começarão apenas quando re-imaginarmos o sentido da humanidade, das relações que humanos estabelecem entre si e da relação com o ambiente ao seu redor. Apenas quando surgir uma alternativa filosófica a esta noção de que o humano é um animal econômico – uma noção muito óbvia e sedutora – poderemos ter alguma esperança de um novo espaço político. Aqui, há uma lição preciosa da moderna filosofia política da qual temos que nos lembrar: política não existe naturalmente. A necessária reinterpretação acerca do sentido da humanidade não existe naturalmente. Ela precisará ser criada e terá de ser constantemente renovada para que, quem sabe, exista em torno dela novo projeto político. Quando isto acontecerá? Muito difícil prever. A consistência interna das teses fundamentais da moderna filosofia política é assustadora, a ponto de serem tão óbvias, tão óbvias, que criticá-las parece um exercício de insanidade e loucura. Será necessário muita conversa, exercício e tempo para nos prepararmos para esta crítica. Até lá, só nos resta pensar, pensar e pensar.

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