A crise de legitimidade de sentido e o surgimento do tribalismo informacional, ou: Fake News

Há uma crise de sentido que ameaça destruir a fundação de nosso espaço político e social. A emergência das “Fake News”, de fatos alternativos e o colapso da distinção entre fato e opinião nos trouxe a um momento que podemos chamar de tribalismo informacional, onde as noções de sentido e realidade servem aos caprichos daqueles que detém o poder, ou daqueles que estão dispostos a exercer poder para impor sua “realidade”. Ao contrário do que muitos acreditam, os políticos não são a causa disso. Muito menos a corrupção ou a tentativa de manipulação das eleições: trata-se de algo que faz parte integrante do núcleo de pensamento da filosofia política moderna e liberal e que agora está alcançando um momento de crise (e perfeição). O objetivo deste post é discutir os elementos que permitem o surgimento deste tribalismo informacional.

A emergência das Fake News não deveria assustar a todos tal como está assustando, pois se trata de um fenômeno que vem acontecendo há 30 ou 40 anos no mundo inteiro. Antes de chegarmos na discussão propriamente filosófica, é necessário considerar dois aspectos muito importantes para entender o fenômeno das Fake News.

Em primeiro lugar, é necessário considerar a emergência da advocacia jornalista, daqueles jornalistas que adotam um ponto de vista não-objetivo em nome de algum ideal social ou político. Não há nada exatamente de errado nisso. O problema é que muitos desses jornalistas falham em admitir e fazer aparecer sua perspectiva para o leitor; falham ao espalhar propaganda e ao julgar e suprimir fatos ou mesmo falham quando apresentam falsas verdades; falham ao ignorar oponentes; falham ao não explorar argumentos que desafiam sua perspectiva; falham ao explorar slogans e polêmicas, ao invés de articular problemas complexos de maneira clara e cuidadosa.

Em segundo lugar, já há muito tempo os grandes jornais são pagos para publicarem matérias e artigos favoráveis a grandes empresas, países, etc. Estas matérias e artigos são peças publicitárias, mas apenas recentemente começaram a ser identificados enquanto tal e sempre foram publicados carregando a credibilidade dos grandes jornais consigo.

Considerando estes dois fatores juntos, as Fake News não deveriam ser surpresa para ninguém, pois os dois fenômenos apontados anteriormente acontecem já há muito tempo. Mas será que é possível combatê-los? Será que a origem deste problema se localiza nos políticos corruptos, que compram a mídia? Não. Antes disso, o espaço político onde vivemos foi criado para permitir este tipo de coisa. E aqui está o cerne da crise que atravessamos.

Essa discussão necessita de uma rápida preliminar: é importante ter em mente uma reflexão acerca da noção de verdade, do contrário é impossível refletir sobre as Fake News. Desde a antiguidade clássica até a modernidade, vigorou a ideia de que existem verdades objetivas que transcendem a opinião humana. Para Platão, tratam-se de ideias perfeitas que podem ser contempladas com a alma; para o cristianismo, trata-se de deus; para a modernidade, tratam-se das leis da natureza, que podem ser alcançadas e descobertas através da razão. Nos três casos, temos presente a ideia de que existem verdades objetivas e que independem completamente da vontade humana. Esta é a base da distinção entre fato e opinião que se mostra presente desde o pensamento grego até hoje.

As Fake News fazem parte do núcleo de ideias que constitui a filosofia política moderna liberal. Em que isso consiste? As teses filosóficas que dão sustentação a ela foram baseadas nas obras de Maquiavel, Hobbes e Locke. Para eles, a política não é natural, mas artificial. O mundo (inclui-se aqui o mundo político) não possui uma arkhé, uma ordem natural tal qual os gregos e os cristãos entendiam. O mundo é anárquico, de modo que a política deve ser criada para que exista. Além disso, a filosofia política moderna liberal compreende que o ser humano é um animal aquisitivo e que deseja, acima de tudo, poder. A condição natural do humano para a filosofia política moderna é a de guerra de todos contra todos.

Neste sentido, a filosofia política moderna emerge como uma estratégia para administrar, controlar e reduzir a violência experimentada pelos humanos. Na origem desta violência está o embate constante em torno de questões fundamentais como a existência de deus, a vida boa, o sentido da existência, etc. A estratégia liberal para reduzir a violência resultante desses intensos debates consiste em converter toda e qualquer afirmação acerca dessas coisas em opiniões. Hobbes afirma com todas as palavras no Leviatã: não há sumo bem ou fim último. Com Locke, o princípio da tolerância transforma qualquer posicionamento acerca da existência de deus ou acerca da vida boa em uma opinião. A ideia por trás disto é a de impedir a emergência de conflitos acabando com a possibilidade de alguém arvorar para si um discurso verdadeiro (que converteria os outros em discursos falsos, e assim começaria toda a violência que a filosofia política moderna visa controlar). Neste espaço político, todos tem direito a opinião, e todos tem opiniões sobre tudo e todos. Não é por acaso que Locke sustenta que é cada ser humano que deve decidir se o governo é legítimo ou não. A inteligência ou estupidez destes não faz qualquer diferença na hora deste julgamento.

Como se vê, a distinção entre verdade e opinião não existe no interior da filosofia política moderna e liberal. A rigor, no interior da filosofia política moderna liberal, só é possível afirmar que uma pessoa está errada a respeito de algo com o seu consentimento. A filosofia política moderna promove um curioso culto do humano comum, que Maquiavel chama de “vulgar”, ou seja, daquele que se interessa apenas por segurança e que possui memória curta. Cientistas e outros comprometidos com a ideia de que existe uma verdade objetiva não raro compreendem mal a filosofia política moderna e sugerem que o sistema político foi cooptado e roubado pelos poderosos. Esta análise é equivocada e até mesmo enganosa. Ela não consegue perceber que o espaço político criado a partir da filosofia política moderna existe justamente para permitir a existência de um espaço onde a diferença entre opinião e fato é colocada em xeque. As Fake News são uma evidência de que a filosofia política moderna e liberal está alcançando a sua perfeição e plenitude.

Quem conseguir compreender este fenômeno estará preparado para começar a ver o tamanho da crise que enfrentamos. Não estamos diante de um sistema que foi corrompido e que traiu os ideais democráticos criados pela filosofia política moderna e liberal; estamos diante de um sistema político que foi criado exatamente para permitir estes eventos, e que agora está alcançando um momento único de perfeição. O que pode ser feito contra isto? Ora, devemos nos lembrar que a política é uma construção artificial. Ela pode ser criada e recriada. A arte e o fenômeno da criação são essenciais na fundação de uma nova possibilidade de compreender o ser humano e a política, mas exploraremos essas ideias em um futuro próximo.

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